quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Mar morto


Aqui minha mente que fala, os meus restos e cada osso triturado. As minhocas que comem meus últimos pedaços. Aqui quem fala é minha memória póstuma, minha língua cortada e meus olhos fechados. Minha boca seca e cheia de vermes terrestres ou marinhos. Deixaram-me morrer, só. E é só, que sinto. Na companhia de restos, vermes e minhocas. Talvez estas me entendam tão bem como nunca alguém me entendeu. Exceto minha memória póstuma ou a de curto prazo, fora isso, nunca tive companhia na vida. Refugiei-me, sem encontrar saída. E alguém pra me acolher, pra não me deixar morrer, sozinha... Para se importar, pra fazer com que me importe. Um alguém sequer, pra me entender. E me fazer falar, sem compromissos e sem desculpas. Sem cobranças. Alguém que respirasse meu sentimento e comesse da minha vida, sem pagar a conta, sem enxaguar a fragrância. Alguém ao menos que completasse o resto do coração que me falta, o resto da saliva que me sobra, pra eu engolir e não me engasgar com tamanha solidão. E que eu nunca precise falar... Adivinhar e não jogar no lixo o único símbolo que ainda cultivo. Morri em uma praia-a-meia-lua, em um dia negro, negro como o dia que pensei renascer... Jogaram-me no mar, como pensei ser meu destino. Lançaram-me como pedra nas ondas e elas não me reconheceram... Jogaram-me fora, abandonaram-me na praia, sem motivos, sem razões, sem RESPEITO! Sem pudor. E assim fui esquecida... De símbolo, virei água para outras ondas (lagos, poços e cachoeiras, mas principalmente lágrimas). De vida, virei morte. De esperança, virei desilusão. E aqui estou eu, a ser comida pela minha própria solidão, que usa das garras da morte para me fazer menos viva a cada dia... A cada hora, a cada minuto... A cada praia. A cada lua.

Foto em http://www.deviantart.com/print/127279/

3 comentários:

Thainara Prazeres disse...

Tá que pariu
Tá que pariu
Ficou muito bom!!,
Ótimo!!!!!,
Perfeito!!!,
Original!
(haha)

gato de Schrödinger disse...

Apesar de um tanto lúgubres, gosto bastante dos suas investidas em dramas psicológicos de primeira pessoa. Concordo com a pinião acima, também acho que ficou muito bom. Entretanto, sempre que observo escritos como este, não posso evitar de pensar que, na verdade, utilizando-se do subterfúgio do seu eu-lírico, seja você quem experimente intimamente as emoções expostas dos seus protagonistas oníricos. Ou não.

ps: este sureal gato alemão que vos fala sentiu-se barbaramente ofendido com a sua omissão em avisá-lo de que seu blog havia mudado de nome e de endereço! Como se vê, encontrei-o. além de exagerados, nós, felinos metafísicos, somos bastante fiéis.

Amora disse...

Tu já estavas em BH quando fizeste esse post né?

Estou abismada como nem tudo que parece ser é.
Ao meu ver, as coisas estavam indo de vento em polpa. Conhecendo uns aqui, saindo...
Mas vejo tanta solidão descrita.
Talvez, essas coisas não sejam suficiente para tornar-te completa.. porém amenizam muito o sentimento de solidão, não?